Poucos personagens bíblicos despertam tanta curiosidade quanto a Besta que emerge do mar em Apocalipse 13. Ao longo dos séculos, cristãos, estudiosos, teólogos e até pessoas sem qualquer vínculo religioso tentaram identificar quem seria essa figura misteriosa descrita pelo apóstolo João.
Guerras, impérios, líderes políticos, sistemas religiosos e até avanços tecnológicos já foram apontados como possíveis candidatos à identidade da Besta.
Em diferentes épocas da história, pessoas acreditaram que ela já havia surgido.
Durante o Império Romano, muitos pensavam que a profecia apontava para Roma.
Na Idade Média, surgiram novas interpretações.
Nos séculos XX e XXI, líderes mundiais, organizações internacionais e sistemas globais passaram a ser associados ao texto apocalíptico.
Mas afinal, o que a Bíblia realmente diz?
Antes de tentar responder se a Besta já está presente no mundo, precisamos compreender o que João viu em sua visão profética.
Muitas interpretações populares ignoram o contexto bíblico e acabam produzindo especulações que vão muito além do que as Escrituras afirmam.
O livro de Apocalipse foi escrito em uma linguagem altamente simbólica. Isso não significa que suas profecias sejam irreais, mas que seus símbolos precisam ser interpretados à luz da própria Bíblia.
Além disso, diferentes correntes escatológicas apresentam explicações distintas para a identidade da Besta. Preteristas, historicistas, idealistas e futuristas chegam a conclusões diferentes sobre a mesma passagem.
Neste estudo, vamos analisar o que Apocalipse 13 ensina sobre a Besta que saiu do mar, quais são suas características, como as principais escolas de interpretação entendem essa figura e se existe alguma razão bíblica para acreditar que ela já esteja atuando no mundo atual.
índice desta publicação:
ToggleA visão da Besta que emerge do mar em Apocalipse 13.

A principal descrição da Besta aparece em Apocalipse 13:
“Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia. A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade.” (Apocalipse 13:1-2)
Logo no início da visão, João apresenta alguns elementos extremamente importantes.
Primeiro, a Besta surge do mar.
Na linguagem simbólica das Escrituras, o mar frequentemente representa as nações, povos e agitações do mundo.
Isaías escreveu:
“Mas os perversos são como o mar agitado, que não se pode aquietar.” (Isaías 57:20)
Além disso, a própria profecia de Daniel apresenta impérios surgindo simbolicamente do mar.
João também descreve a Besta como uma combinação de leão, urso e leopardo. Essa imagem remete diretamente ao capítulo 7 de Daniel.
Ali encontramos quatro grandes impérios representados por animais:
- o leão simbolizando a Babilônia;
- o urso representando a Média-Pérsia;
- o leopardo associado à Grécia;
- a quarta besta representando Roma.
A Besta de Apocalipse parece reunir características de todos esses impérios anteriores.
Isso sugere que ela representa uma forma final e ampliada do poder político rebelde contra Deus.
Outro detalhe importante é que seu poder vem do dragão.
Poucos capítulos antes, João identifica claramente quem é o dragão:
“Foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás.” (Apocalipse 12:9)
Portanto, a Besta não age de forma independente. Ela opera sob influência satânica.
O que a Besta fará segundo a profecia bíblica?

Muitas interpretações modernas focam apenas na identidade da Besta e ignoram aquilo que ela realmente faz.
Apocalipse dedica mais atenção às suas ações do que ao seu nome.
João escreve:
“Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses.” (Apocalipse 13:5)
A primeira característica da Besta é sua oposição direta a Deus.
Ela não será apenas um governante poderoso.
Será um sistema ou líder marcado por blasfêmia e rebelião espiritual.
O texto continua:
“Foi-lhe dado também que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação.” (Apocalipse 13:7)
Essa passagem revela três características fundamentais:
Primeiro, a Besta exercerá enorme influência global.
Segundo, perseguirá os santos.
Terceiro, possuirá autoridade sem precedentes sobre povos e nações.
O texto também declara:
“E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra.” (Apocalipse 13:8)
Isso indica que sua atuação ultrapassará a esfera política.
A Besta exigirá lealdade quase religiosa.
Por essa razão, muitos estudiosos futuristas entendem que ela representa o governante mundial que a teologia dispensacionalista normalmente identifica como o Anticristo.
John Walvoord escreveu:
“A Besta de Apocalipse 13 representa o clímax do poder humano energizado por Satanás.” (John Walvoord, The Revelation of Jesus Christ)
Independentemente da interpretação adotada, o texto apresenta uma figura extraordinariamente poderosa e profundamente hostil ao Reino de Deus.
Como as principais correntes escatológicas interpretam a Besta?

Uma das razões pelas quais existe tanta discussão sobre a identidade da Besta é que diferentes escolas escatológicas chegam a conclusões distintas.
A interpretação preterista.
Os preteristas entendem que grande parte do Apocalipse foi cumprida no primeiro século.
Nessa visão, a Besta geralmente é associada ao Império Romano ou a imperadores específicos, especialmente Nero.
Os defensores dessa interpretação observam que Nero perseguiu violentamente os cristãos e exigia lealdade ao império.
A interpretação historicista.
Os historicistas veem o Apocalipse como um panorama da história da Igreja.
Muitos reformadores protestantes identificaram a Besta com sistemas religiosos e políticos que, segundo eles, se afastaram do Evangelho ao longo da história.
Figuras como Martinho Lutero e João Calvino interpretaram algumas profecias nesse sentido.
A interpretação idealista.
Os idealistas entendem a Besta como um símbolo recorrente do poder humano rebelde.
Nessa visão, ela não representa apenas uma pessoa específica.
Ela simboliza qualquer sistema político, econômico ou religioso que se oponha a Deus e persiga seu povo.
A interpretação futurista.
Os futuristas acreditam que a Besta ainda surgirá no futuro.
Essa é a posição mais comum entre dispensacionalistas.
Nessa interpretação, a Besta será um líder mundial real que aparecerá durante o período da Tribulação.
Ela exercerá autoridade global, firmará alianças políticas e perseguirá os santos durante os eventos finais da história.
Cada uma dessas abordagens possui argumentos próprios, mas todas concordam em um ponto: a Besta representa uma manifestação extraordinária do poder humano em oposição ao governo de Deus.
Será que a Besta já está aqui? A coalizão profética pode já estar tomando forma.
A pergunta que milhões de cristãos fazem é simples: a Besta já está no mundo?
Sob a perspectiva futurista dispensacionalista, a resposta pode ser dividida em duas partes.
O sistema que dará origem à Besta provavelmente já existe. O governante final ainda não apareceu.
A razão para essa conclusão está na própria descrição profética encontrada em Daniel e Apocalipse.
Daniel viu um império final simbolizado por dez chifres:
“Os dez chifres correspondem a dez reis que se levantarão daquele mesmo reino; e depois deles se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis.” (Daniel 7:24)
Séculos depois, João descreve a mesma realidade:
“Os dez chifres que viste são dez reis, os quais ainda não receberam reino, mas recebem autoridade como reis, com a besta, durante uma hora. Têm estes um só pensamento e oferecem à besta o poder e a autoridade que possuem.” (Apocalipse 17:12-13)
Esses textos levaram muitos estudiosos futuristas a concluir que a Besta não será apenas um indivíduo isolado.
Ela surgirá de uma coalizão política internacional composta por dez governantes ou dez blocos de poder que entregarão sua autoridade a um líder central.
Esse líder será o Anticristo.
Em outras palavras, o Anticristo não cria o sistema mundial do nada.
Ele assume o controle de uma estrutura política já existente e recebe autoridade de governantes que voluntariamente lhe entregam poder.
John Walvoord escreveu:
“A forma final do império mundial consistirá em uma confederação de dez governantes que acabarão subordinando-se ao governo do Anticristo.” (John Walvoord, The Revelation of Jesus Christ)
Isso explica por que muitos estudiosos observam atentamente os movimentos de integração política, econômica e militar entre as nações.
Pela primeira vez na história humana, existe tecnologia suficiente para administrar um sistema global de comunicação, comércio, vigilância e controle financeiro.
Pela primeira vez também existe uma interdependência internacional sem precedentes.
Embora isso não prove que a profecia já tenha sido cumprida, demonstra que o cenário necessário para seu cumprimento está disponível.
Sob essa perspectiva, os países que comporão a futura coalizão podem já existir neste exato momento.
O que ainda não aconteceu é a unificação definitiva desses poderes sob a liderança do governante descrito pelas profecias.
As nações continuam sendo representadas por bestas até hoje.
Algo curioso é que o simbolismo utilizado por Daniel e João continua extremamente atual.
Nas profecias bíblicas, impérios eram frequentemente representados por animais.
Daniel descreveu Babilônia como um leão, a Média-Pérsia como um urso e a Grécia como um leopardo.
Até hoje muitas nações utilizam animais para representar sua identidade nacional ou seu poder geopolítico.
Alguns exemplos conhecidos incluem:
- A águia associada aos Estados Unidos;
- O urso associado à Rússia;
- O dragão associado à China;
- O leão associado ao Reino Unido;
- O galo associado à França.
Isso não significa que esses países sejam necessariamente os animais proféticos de Daniel ou Apocalipse.
Porém, demonstra como o simbolismo das bestas continua sendo uma linguagem natural para representar nações e poderes políticos.
Da mesma forma que Daniel viu impérios representados por animais, João descreveu um sistema político final simbolizado por uma Besta composta por características de vários impérios anteriores.
A imagem sugere que o governo mundial futuro herdará elementos dos grandes impérios que marcaram a história humana.
Será uma concentração de poder político, econômico e militar sem precedentes.
Por isso, muitos futuristas entendem que a Besta não deve ser vista apenas como um homem, mas como um império global liderado por um homem.
O Anticristo será a cabeça visível.
A Besta será o sistema político que o sustentará.
O foco do Apocalipse não é a Besta, mas a vitória de Cristo.
Muitas vezes os debates sobre a Besta acabam desviando a atenção do tema principal do Apocalipse.
O objetivo do livro não é exaltar o poder do Anticristo.
O objetivo é revelar a supremacia de Jesus Cristo.
Logo no primeiro capítulo lemos:
“Revelação de Jesus Cristo.” (Apocalipse 1:1)
O personagem central do livro não é a Besta. É Cristo.
A Besta recebe autoridade temporária, mas Jesus possui autoridade eterna.
A Besta governa por um período limitado, Cristo reina para sempre.
A Besta persegue os santos, mas Cristo salva e glorifica seu povo.
O Apocalipse termina mostrando o destino final da Besta:
“A besta foi aprisionada, e com ela o falso profeta.” (Apocalipse 19:20)
Essa passagem revela uma verdade fundamental.
Por mais poderosa que a Besta pareça, sua derrota já está decretada.
John MacArthur escreveu:
“A mensagem central do Apocalipse não é o triunfo do mal, mas a vitória final de Cristo.” (John MacArthur, Because the Time Is Near)
Esse é o verdadeiro foco da esperança cristã. O crente não vive obcecado tentando identificar a Besta. Ele vive aguardando a volta do Rei.
Conclusão.
As Escrituras apresentam a Besta que emerge do mar em Apocalipse 13 como um poder extraordinário que recebe autoridade do dragão, se opõe a Deus, persegue os santos e exerce influência mundial.
Diferentes correntes escatológicas interpretam essa figura de maneiras distintas.
Alguns a identificam com o Império Romano do primeiro século. Outros a veem como um símbolo recorrente dos poderes humanos rebeldes.
Muitos futuristas acreditam que ela ainda surgirá como um líder mundial durante a Tribulação.
Quanto à pergunta “Será que ela já está aqui?”, a resposta mais cautelosa é que a Bíblia não permite uma identificação definitiva de qualquer pessoa ou instituição contemporânea por enquanto.
É possível observar tendências globais que parecem compatíveis com o cenário descrito nas profecias. Contudo, o cristão deve evitar especulações dogmáticas e permanecer firme naquilo que a Palavra realmente afirma.
Mais importante do que descobrir a identidade da Besta é compreender a mensagem central do Apocalipse: nenhum poder humano, por mais impressionante que pareça, poderá impedir o triunfo final de Jesus Cristo.
“Ao que está assentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.” (Apocalipse 5:13)











